grego

9 de fev de 2012

SALMOS E LAMENTOS

É costume meu ficar pensando sobre as orações não respondidas, sobre os dilemas da humanidade que nos acompanham desde sempre, já cantados pelos salmistas, como Asafe, ou pelos poetas, como Sófocles. Rememorando então os salmos, as lamentações, as grandiosas brigas de homens santos com Deus (que outro deus permite ao mortal que se discuta com ele?), como Jó e até mesmo Jacó, resolvi sintetizar esses dilemas. Como a síntese não está muito sintética, achei melhor criar um link para ser visto. É só clicar aqui que o pdf vai aparecer.

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22 de mar de 2011

O que ganhei quando perdi

Perdi meus avós e meu pai...
Senti o luto do próximo.

Perdi meu emprego...
Nunca mais olhei o pai desempregado da mesma forma.

Perdi o amor...
Entendi a solidão.

Perdi a fé e a esperança...
Percebi a loucura do mundo.

Perdi o tempo...
Compadeci-me do ansioso.

Todas as coisas que perdi ou que deixei de ganhar
Fizeram-me mais humano,
Mais próximo do outro.

A dor do casamento esfacelado dói em mim.
A dor do órfão corta-me a alma.
A dor do pai sem filho apavora-me!

Perdi-me na dor;
Na minha e na do outro,
Mas achei-me em ti, meu SENHOR!

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16 de out de 2009

DEUS AMA?

Essa semana, durante uma aula de AT, deparei-me com a questão do arrependimento de Deus em ter feito o homem (Gn 6.6): como Deus pode se arrepender se em Números 23.19 diz que ele não se arrepende? Na tentativa limitadíssima de explicar as ações do Senhor (no que, confesso, me pareço mais com os amigos de Jó), topei com o termo antropopatia: a atribuição do pathos do anthropos a Deus para justificar as suas ações, ou seja, para falarmos da divindade precisamos adequá-la (descê-la) ao nosso pobre discurso humano.
Durante a aula, minha cabeça ficou meditando o seguinte: se atribuímos sentimentos humanos a Deus para tentar entendê-lo, isso não se limita ao arrependimento, mas a todo tipo de sentimento, inclusive o amor. Se não é correto utilizar o termo “arrependimento” para falar das “mudanças de atitudes” (engasguei aqui) de Deus, seria correto utilizar o termo “amor”? Eu nem sei se amo da mesma forma que outro ser humano ama, como saber como Deus ama? Se é antropopatia atribuir sentimentos humanos a Deus, como o arrependimento, também o é o amor.
Tenho que me conformar com minha insignificância, ignorância e incompetência em teologia e saber que teologia não é e nunca foi discurso a respeito de Deus e sim tentativa humana de entender o Divino. Não sei quase nada a respeito do amor de Deus, porque, por mais que saiba, é kenósis discursiva. Da única coisa que tenho certeza, e acho que isso basta, é que por causa desse “amor” ele enviou o seu filho para morrer em meu lugar.

20 de fev de 2007

Sl 63 - Uma Oração


Ó Deus, eu te busco ansiosamente. O meu corpo te deseja como a terra árida, exausta, clama por água. Não te escondas de mim quando eu te busco! Não te afastes de minha alma quando clamo por ti!

Tu és o meu Deus forte; sem ti nada sou. Longe de ti sou como um galho arrancado da videira: há marcas em mim e em ti. Torna a enxertar-me. Deixa-me provar de tua seiva, saciar-me com teu sustento.

Ah! Jardineiro de minha alma, refresca-me do calor sufocante das angústias, orvalha-me com tua doçura e bondade e aduba-me com tua misericórdia e graça.

Meu Deus, espero em ti, não te demores. Volve os olhos para mim e vê as marcas de teu Filho, Jesus, que está entre nós, amém!

10 de fev de 2007

Inaudita Beleza

Queria escrever um poema
Para te exaltar...
E não consegui.

Queria fazer uma música
Para te louvar...
E não fui capaz.

Queria falar, mas como?
Sobre tua grandeza
E foi-me impossível.

Tua inaudita beleza
Faz de tua presença
As palavras fugirem.

Sua excelsa glória
Abafa o som
Das mais belas melodias.

Como falar de ti?
Quais palavras?
Quais canções?

Oh! Inefável majestade,
Melodias e palavras não as há
Dignas de tua magnificência.

Dizer o indizível,
Cantar o silêncio,
É falar de Deus.

Mas há algo melhor
Que de ti falar...

É contigo conversar.

11 de jan de 2007

Os Jacobinas


Jacobina não discutia nunca. É assim que Machado de Assis define seu personagem no conto "O Espelho": um homem que não discutia nunca. Mas esse homem estava em uma pequena casa no morro de Santa Teresa onde mais quatro homens discutiam, e discutiam questões de alta transcendência até que, ao tocarem na questão da alma humana, Jacobina foi convidado a expor sua opinião. "Nem conjectura, nem opinião... mas, se quiserem ouvir-me calados..."
Esse casmurro não queria ouvir a opinião de seus companheiros, queria apenas contar um caso ocorrido com ele por volta dos vinte e cinco anos de idade; caso esse que comprovaria a sua tese de que não há somente uma alma, há duas: uma interior e outra exterior; "uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...." e tendo esta a mesma importância vital daquela.
Se quiserem saber o caso ocorrido com Jacobina e como ele comprovou a sua tese, leiam o conto machadiano. Quanto a mim, somente quero aproveitar-me dele para defender uma outra tese: há vários Jacobinas espalhados por aí. Existem sim. São pessoas que vivem como se pudessem simplesmente ignorar a opinião do outro, somente querem que as demais pessoas, caladas, os ouçam. São seres contraditórios, que ao mesmo tempo em que não conseguem viver sem o outro, querem negar-lhe o direito à réplica. É uma tensão dialógica na qual o outro, mesmo calado, incomoda. Afinal de contas, o que estará ele pensando a meu respeito?
Tem gente que não sabe ouvir. Talvez tenham medo de, com a opinião do outro, descobrirem que não estão tão seguros em suas elocubrações, porque nossos discursos se constróem sob a influência direta do discurso do outro (Bakhtin), e com isso tenham que mudar de opinião. Nem todos estão dispostos a fazer esse caminho.
Por que será que há pessoas que semeiam idéias e mais idéias e não aceitam ser questionadas? Por que será que há gente que vive com se não precisasse do outro? Necessitam entender que "o homem nunca encontrará a sua plenitude apenas em si mesmo" (Bakhtin). É no processo dialógico que nos construímos, que construímos nossas idéias: eu dependo do outro para me ver. O outro me provoca. É na voz do outro que me descubro e até mesmo me realizo. Sem o outro eu não sou nada. Então, porque fugir do embate? Por que não dar respostas quando questionado? Por que não tem respostas ou por que tenta ignorar o oponente? Acho que a segunda resposta é mais plausível, pois quando não se tem resposta simplesmente pode-se responder: "não sei".
O conto termina com Jacobina descendo as escadas enquanto os seus companheiros voltavam a si. O narrador de sua própria história sabia que dependia da alma exterior, mas não estava disposto a discutir com ela. Aproveita, então, o atordoamento de seus alocutários para "fugir". Por que Jacobina não continuou? Será que não foi por receio que questionassem a sua teoria? A alma exterior de Jacobina naquele instante eram os seus companheiros, e como ele dependia de uma alma exterior que não se lhe opusesse, como sua tia, os escravos, o espelho, fugiu. Partiu desfazendo qualquer possibilidade de questionamento.
É... Tem gente que é assim mesma: não sabe dialogar, não sabe interagir, não sabe ouvir, somente quer falar e ser ouvido. Não sabe viver sem sua alma exterior, mas também não sabe conviver dialogicamente com ela. Fazer o quê? São os Jacobinas em eterna tensão.
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1 Machado de Assis. O Espelho.
2 BAKHTIN, Michail. Problemas na Poética de Dostoievski. Trad. Paulo Bezerra. 3.ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005. 275p.

7 de dez de 2006

É Para o Bem do Reino

Era uma vez um homem extremamente crédulo. Tudo quanto lhe contavam ele acreditava. Assim, foi fácil para ele crer em Jesus Cristo e entregar-se totalmente ao senhorio deste, e continuava acreditando em tudo o que lhe contavam, ainda que não tivesse respaldo bíblico. "Sabe como é, o Espírito é livre e pode fazer o que quer", pensava ele.

Era uma vez um outro homem, extremamente desconfiado. Tudo quanto lhe contavam ele não dava importância achando que era mais uma lorota. Contudo, ele também, pela graça de Deus, aceitou a Jesus como seu senhor, mas continuou não acreditando em tudo quanto lhe diziam, ainda que tivesse respaldo bíblico. "Sabe como é... esta é a interpretação que o irmão tem, será que não existe nenhuma outra?", dizia ele.

Certo dia esses dois irmãos se conheceram em uma programação da igreja (eles eram membros da mesma igreja, porém não se conheciam ainda. Coisa de igreja grande) e travaram um longo bate-papo, onde ficou bem claro para ambos qual a postura de cada um. O "crédulo" saiu da conversa pensando: "é... a igreja tem que tomar cuidado com esse irmão! Já pensou se todo mundo aqui começar a desconfiar de tudo como ele? É preciso fazer alguma coisa." Por sua vez, o "desconfiado" foi embora meditando: "é... a igreja tem que tomar cuidado com esse irmão! Já pensou se todo mundo aqui começar a acreditar em tudo? Daqui a pouco a igreja vai virar uma bagunça!"

O tempo foi passando e com ele o desafeto entre os dois irmãos aumentava. Ambos foram se cercando de pessoas que compartilhavam idéias parecidas até que um dia o "desconfiado" conseguiu um cargo importante na igreja e tudo fez para diminuir a atuação do outro irmão. Este viu-se limitado a somente comparecer aos cultos e nada mais lhe era permitido fazer. "Sabe como é... é perigoso ficar acreditando em tudo! É para o bem do Reino!", alegava o "desconfiado".

Os dias corriam, a mentalidade da igreja estava mudando, os membros já não eram tão apegados à tradição e a maioria nem conhecia a própria denominação. Foi a oportunidade que o irmão "crédulo" estava precisando. Ele começou a ficar mais importante na igreja, cargos lhe foram entregues e, por sua vez, a cada dia ele tirava mais e mais o poder das mãos do "desconfiado". "Sabe como é... ele é um perigo para o evangelho! Ele inibe a atuação do Espírito Santo em nosso meio!" – argumentava o "crédulo".

A estratégia usada pelo "crédulo" era simples: primeiro ele conquistou um cargo; depois, já tendo uma certa influência, conseguiu indicar amigos seus para outros cargos; por sua vez, os seus amigos somente chamavam para trabalhar pessoas ligadas a eles e assim fechou-se um "círculo de poder" onde o "desconfiado", a cada dia que passava, ficava cada vez mais distante da liderança e isolado em seu lugar, somente aguardando a chance de reconquistar o que lhe fora tomado. "Sabe como é... é para o bem do evangelho" – cogitava o "desconfiado".

E assim caminhavam ambos os grupos. Todos muito preocupados com o bem estar do Corpo de Cristo, uma vez que o outro é uma ameaça ao Reino de Deus.

"Todo reino dividido contra si mesmo ficará deserto, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá." (Mt 12.25)