grego

11 de jan de 2007

Os Jacobinas


Jacobina não discutia nunca. É assim que Machado de Assis define seu personagem no conto "O Espelho": um homem que não discutia nunca. Mas esse homem estava em uma pequena casa no morro de Santa Teresa onde mais quatro homens discutiam, e discutiam questões de alta transcendência até que, ao tocarem na questão da alma humana, Jacobina foi convidado a expor sua opinião. "Nem conjectura, nem opinião... mas, se quiserem ouvir-me calados..."
Esse casmurro não queria ouvir a opinião de seus companheiros, queria apenas contar um caso ocorrido com ele por volta dos vinte e cinco anos de idade; caso esse que comprovaria a sua tese de que não há somente uma alma, há duas: uma interior e outra exterior; "uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...." e tendo esta a mesma importância vital daquela.
Se quiserem saber o caso ocorrido com Jacobina e como ele comprovou a sua tese, leiam o conto machadiano. Quanto a mim, somente quero aproveitar-me dele para defender uma outra tese: há vários Jacobinas espalhados por aí. Existem sim. São pessoas que vivem como se pudessem simplesmente ignorar a opinião do outro, somente querem que as demais pessoas, caladas, os ouçam. São seres contraditórios, que ao mesmo tempo em que não conseguem viver sem o outro, querem negar-lhe o direito à réplica. É uma tensão dialógica na qual o outro, mesmo calado, incomoda. Afinal de contas, o que estará ele pensando a meu respeito?
Tem gente que não sabe ouvir. Talvez tenham medo de, com a opinião do outro, descobrirem que não estão tão seguros em suas elocubrações, porque nossos discursos se constróem sob a influência direta do discurso do outro (Bakhtin), e com isso tenham que mudar de opinião. Nem todos estão dispostos a fazer esse caminho.
Por que será que há pessoas que semeiam idéias e mais idéias e não aceitam ser questionadas? Por que será que há gente que vive com se não precisasse do outro? Necessitam entender que "o homem nunca encontrará a sua plenitude apenas em si mesmo" (Bakhtin). É no processo dialógico que nos construímos, que construímos nossas idéias: eu dependo do outro para me ver. O outro me provoca. É na voz do outro que me descubro e até mesmo me realizo. Sem o outro eu não sou nada. Então, porque fugir do embate? Por que não dar respostas quando questionado? Por que não tem respostas ou por que tenta ignorar o oponente? Acho que a segunda resposta é mais plausível, pois quando não se tem resposta simplesmente pode-se responder: "não sei".
O conto termina com Jacobina descendo as escadas enquanto os seus companheiros voltavam a si. O narrador de sua própria história sabia que dependia da alma exterior, mas não estava disposto a discutir com ela. Aproveita, então, o atordoamento de seus alocutários para "fugir". Por que Jacobina não continuou? Será que não foi por receio que questionassem a sua teoria? A alma exterior de Jacobina naquele instante eram os seus companheiros, e como ele dependia de uma alma exterior que não se lhe opusesse, como sua tia, os escravos, o espelho, fugiu. Partiu desfazendo qualquer possibilidade de questionamento.
É... Tem gente que é assim mesma: não sabe dialogar, não sabe interagir, não sabe ouvir, somente quer falar e ser ouvido. Não sabe viver sem sua alma exterior, mas também não sabe conviver dialogicamente com ela. Fazer o quê? São os Jacobinas em eterna tensão.
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1 Machado de Assis. O Espelho.
2 BAKHTIN, Michail. Problemas na Poética de Dostoievski. Trad. Paulo Bezerra. 3.ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005. 275p.

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